Diagnóstico

Artigo extraído da associação portuguesa de celíacos

Email: acelbrajoinville@acelbrajoinville.com.br

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O que é preciso para um diagnóstico correcto?

Do que se disse pode concluir-se que a simples presença de sintomas não chega para fazer um diagnóstico com segurança. Assim, e antes de mais nada, o médico deve completar a sua observação com um conjunto de análises que lhe permitam conhecer as consequências das perturbações da absorção intestinal.

Na fase ativa da doença por exemplo, são freq
üentes a anemia e a diminuição da concentração de alguns componentes habituais do sangue como o colesterol, o ferro e as proteínas. Há, por outro lado, vitaminas que também não são bem absorvidas o que se traduz pela baixa dos seus níveis circulantes (ácido fólico) ou pelas conseqüências da sua falta (no caso da vitamina K há alongamento do chamado tempo de protrombina, e no da vitamina D alterações do cálcio e do fósforo ou até raquitismo).

Pode ainda recorrer-se a provas que avaliam a capacidade de absorção do intestino para diversas substâncias e dão portanto uma ideia das lesões aí existentes. É o caso da prova de absorção da xilose que por ser muito simples e fiel é das mais utilizadas na celiaquia. Por outro lado, quando o celíaco não faz dieta, aparecem muitas vezes em circulação anticorpos contra os componentes do glúten: são os anticorpos anti-gliadina
cuja presença é um bom indicador das lesões intestinais. Eles podem servir para apoiar a suspeita de diagnóstico ou para saber se há ou não cumprimento da dieta. Há outros anticorpos com valor idêntico (anti-reticulina e anti-endomisio) cuja escolha depende da experiência de cada centro e das disponibilidades práticas dos laboratórios. Actualmente a análise ao sangue mais especifica é a anti-transglutaminase.

Todos estes meios não chegam porém para o diagnóstico de certeza pois há outras situações com alterações laboratoriais muito parecidas com as que se encontram na doença celíaca.

Para completa segurança é necessário analisar de forma directa o
que se passa no intestino a partir de fragmentos que se obtêm através de uma sonda especial conduzida sem dor até ao local que se quer estudar. É a isto que se chama biópsia e é ela o passo fundamental do diagnóstico.

Embora extremamente importante, este exame é olhado às vezes com uma certa reserva, como se fosse uma "operação" dolorosa, difícil e com muitos riscos. Nada disto é verdade, e se eventualmente se torna incómoda, isso dever-se-á mais à falta de colaboração do doente do que ao exame em si. Quanto a riscos, é evidente que como qualquer
prova, a biópsia intestinal tem os seus, mas eles são mínimos quando efectuados por uma equipa experiente em meio hospitalar. Por isso, se compararmos friamente os prós e os contras, não teremos dúvidas em afirmar que as suas vantagens são de longe superiores aos seus inconvenientes.

A observação do fragmento de intestino assim obtido vai permitir uma avaliação directa das lesões existentes. Estas dizem respeito sobretudo à camada mais interior do intestino, a mucosa, a qual tem no indivíduo normal, múltiplas saliências microscópicas (as vilosidades) que multiplicam extraordinariamente a superfície de absorção. Depois de preparado e cortado, o fragmento obtido pela biópsia
mostra estas vilosidades, com o aspecto de "árvores" (ciprestes!) de forma mais ou menos regular. No celíaco sem dieta as vilosidades desaparecem praticamente, surgindo uma intensa inflamação local. Se estas alterações melhorarem com a retirada do glúten da alimentação e voltarem quando ele for reintroduzido, então estar-se-á seguramente perante uma doença celíaca tal como ela foi definida em 1971 pela Sociedade Europeia de gastroenterologia e Nutrição Pediátrica (ESPGAN). Para chegarmos a este diagnóstico foram necessárias três biópsias e um caminho por vezes complexo a seguir.



TRATAMENTO

Uma Dieta equilibrada

De tudo o que foi dito se pode concluir que a DIETA SEM GLÚTEN é
a base do tratamento: Só excluindo totalmente esta substância da alimentação é possível impedir o aparecimento das lesões intestinais nos indivíduos susceptíveis e não há qualquer outra solução ou medicamento com o mesmo efeito.

Como o glúten se encontra no TRIGO, CENTEIO, CEVADA e AVEIA, a dieta para ser eficaz não poderá conter nenhum destes 4 cereais ou seus derivados. Mas atenção: a resposta do intestino é geralmente rápida e por isso não se deve fazer qualquer restrição alimentar ANTES DA CONFIRMAÇÃO DO DIAGNÓSTICO PELA BIÓPSIA.

Com esta regra evitam-se confusões difíceis de resolver e grandes prejuízos para os doentes. Nos casos
mais graves (com malnutrição evidente) é possível que existam carências de várias ordens pelo que pode ser necessário administrar suplementos vitamínicos ou ferro nos primeiros tempos de tratamento. Contudo, isto só deve ser feito se o médico o achar necessário.

Depois da retirada do glúten é frequente verificar-se o aparecimento de um apetite voraz, o que é um bom sinal e entusiasma os pais da criança celíaca.

Deve manter-se porém uma certa prudência pois a ingestão excessiva de alimentos em geral não é bem tolerada por um intestino incompletamente recuperado, além de que poderá conduzir a um aumento de peso exagerado. Não parece lógico
que à subnutrição deixemos suceder um estado de obesidade!

Quando a dieta é cumprida a criança poderá levar UMA VIDA INTEIRAMENTE NORMAL: os celíacos podem (e devem!) crescer e desenvolver-se como os outros, não devendo por isso ser impedidos de praticar ginástica, atletismo, natação ou quaisquer outros exercícios físicos adequados à sua idade.

Há sobretudo que evitar olhar para eles como uns "doentinhos": tal como certas pessoas não podem comer mariscos, carne de porco ou outras coisas, estas crianças não toleram o glúten pelo que precisam apenas de uma alimentação sem os 4 cereais já conhecidos.

Temos de reconhecer porém que
esta dieta nem sempre é fácil, até porque estes alimentos fazem parte do dia-a-dia de todas as famílias. Por outro lado, embora existam no mercado muitos produtos sem glúten, eles são habitualmente caros e a sua distribuição pelo país é bastante irregular.

Isto não quer dizer que não se possa fazer uma dieta sem glúten perfeitamente equilibrada e apetitosa: basta encarar o problema de frente e introduzir algumas adaptações nos nossos cozinhados.

Acima de tudo há que contar com a compreensão de TODOS OS MEMBROS DA FAMÍLIA já que a sua colaboração É INDISPENSÁVEL para o cumprimento integral da dieta e
para a educação do doente. Há quem proponha mesmo que para simplificar o trabalho de casa, todos passem a fazer o mesmo tipo de alimentação. Não há qualquer inconveniente nesta solução a qual pode ajudar a diminuir uma eventual "diferença" na atitude perante diferentes irmãos.

Para além das ementas de todos os dias haverá também que imaginar soluções práticas para problemas concretos como a alimentação na escola, as festas de anos, as viagens, os restaurante, etc. E se apesar de todos os cuidados acabar por surgir uma falha isolada, ela não deve ser motivo de preocupação exagerada mas servir sobretudo para
reflexão e para evitar futuras repetições.

Algumas crianças (principalmente os mais jovens) respondem intensamente à ingestão de pequenas quantidades de glúten o que serve de "aviso" para o "infractor".

Em muitos casos, infelizmente, à medida que o tempo passa, os sintomas relacionados com as falhas na dieta vão-se tornando cada vez mais discretos e às vezes quase que desaparecem (pelo menos por algum tempo). Isto não quer dizer que o doente ESTEJA CURADO como erradamente algumas pessoas pensam por vezes: se as falhas se mantiverem iremos encontrar mais tarde ou mais cedo sintomas que vão confirmar esse facto.

É fácil
de compreender que enquanto as queixas não forem muito importantes é por vezes difícil convencer o celíaco a manter a dieta. Estes problemas são particularmente agudos na adolescência onde a "contestação" é mais fácil e os sintomas mais raros. Será útil então uma conversa franca com o médico assistente...e uma boa dose de paciência!

Hoje admite-se que a doença celíaca possa favorecer o aparecimento de tumores no tubo digestivo, principalmente nos casos em que a dieta não é cumprida.

Embora esta associação não se possa afirmar com uma segurança absoluta, parece lógico admitir que um intestino que é "agredido" de forma continuada por uma substância nociva (neste caso o glúten) possa a certa altura "perder o controlo" e originar um tumor. Deve concluir-se pois que após confirmado o diagnóstico de doença celíaca, a dieta DEVE MANTER-SE DEFINITIVAMENTE.

Como já se disse, isto não é razão para que a alimentação não seja agradável e equilibrada como a
que fazemos habitualmente. É bom lembrar que há regiões do mundo onde, por tradição, os cereais com glúten não são utilizados e não consta que estas populações sejam menos felizes por isso!